Guia Rápido Hanseníase

Data de publicação: Abril de 2026
Público-alvo: Profissionais de saúde da Atenção Primária à Saúde do Estado de Goiás

1. Introdução

No estado de Goiás, a hanseníase é um problema relevante de saúde pública, principalmente no contexto de populações de maior vulnerabilidade social. Este Guia Rápido do Telessaúde Goiás busca orientar os profissionais da Atenção Primária à Saúde do Estado de Goiás no diagnóstico, tratamento, acompanhamento e encaminhamento adequado dos pacientes com hanseníase, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A detecção precoce e o tratamento oportuno são os pilares fundamentais para interromper a cadeia de transmissão, curar a infecção e prevenir incapacidades físicas graves e permanentes.

2. Classificação

Para fins de definição do esquema terapêutico para Hanseníase na Atenção Primária, utiliza-se a classificação operacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), baseada no número de lesões cutâneas e no resultado da baciloscopia (quando disponível) [1] [2]:

ClassificaçãoCritérios
Paucibacilar (PB)1 a 5 lesões de pele e baciloscopia obrigatoriamente negativa.
Multibacilar (MB)Mais de 5 lesões de pele e/ou baciloscopia positiva.
Casos com acometimento de mais de um nervo periférico também são classificados como multibacilar, independentemente do número de lesões.

3. Diagnóstico Clínico e Exames Complementares

O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e epidemiológico, devendo ser realizado na própria unidade de saúde por meio de anamnese completa e exame dermatoneurológico.

3.1. Sinais Cardinais

O diagnóstico é confirmado pela presença de pelo menos um dos seguintes sinais cardinais [1] [2]:

  • Lesão(ões) e/ou área(s) da pele com alteração de sensibilidade (térmica, dolorosa e/ou tátil).
  • Espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas, motoras e/ou autonômicas.
  • Presença de M. leprae confirmada por baciloscopia de esfregaço intradérmico ou biópsia de pele.

3.2. Exame Dermatoneurológico

O exame deve incluir a inspeção de toda a superfície cutânea para identificar lesões (manchas, placas, nódulos, infiltrações) e a realização de testes de sensibilidade nas áreas suspeitas. A palpação dos principais troncos nervosos periféricos (ulnar, mediano, radial, fibular comum e tibial posterior) é fundamental para verificar espessamento, dor ou choques à palpação [1] [2].

3.3. Exames Complementares

ExameIndicaçãoInterpretação e Observações
Baciloscopia (BAAR)Dúvida diagnóstica, classificação operacional, suspeita de recidiva. Coleta: lóbulos auriculares, cotovelos e borda ativa da lesão.Positiva = confirma classificação multibacilar.
Negativa = não exclui o diagnóstico.
Biópsia de pele (histopatologia)Diagnóstico indefinido, diagnóstico diferencial, suspeita de forma neural pura.Avalia o padrão do infiltrado inflamatório e a presença de bacilos. Deve ser solicitada quando a clínica não é conclusiva [1] [2].
Teste Rápido
(ML Flow / anti-PGL-1)
Avaliação de contatos de casos confirmados:
(a) assintomáticos ou
(b) com alterações clínicas inconclusivas.
NÃO é teste diagnóstico isolado.
Reagente = maior risco de adoecimento (acompanhar anualmente por 5 anos).
Não reagente = orientar sinais e sintomas da doença e retornar caso apareçam, pois teste não reagente não descarta a doença [8].
Teste Molecular (qPCR)Serviço de referência: material de biópsia de pele ou de nervo.Aprovado para uso exclusivo na investigação dos contatos de hanseníase. Útil em casos paucibacilares com baciloscopia negativa [2] [5].
Amplificação de DNA e hibridização reversaServiço de referência: material de biópsia de pele ou de nervo.Investigação de resistência antimicrobiana.

3.4. Fluxo de Investigação Diagnóstica na Atenção Primária

O profissional deve seguir o seguinte raciocínio clínico diante de um caso suspeito:

  • Suspeita clínica (mancha com alteração de sensibilidade e/ou espessamento neural) → Realizar exame dermatoneurológico completo e avaliação neurológica simplificada.
  • Diagnóstico confirmado (pelo menos 1 sinal cardinal presente) → Classificar como paucibacilar ou multibacilar, notificar e iniciar tratamento com Poliquimioterapia Única (PQT-U).
  • Diagnóstico inconclusivo (sinais sugestivos, mas sem confirmação) → Solicitar baciloscopia e/ou biópsia. Se indisponível, encaminhar para serviço de referência.
  • Suspeita de forma neural pura (alteração neural sem lesão cutânea) → Encaminhar para Atenção Especializada (dermatologia) para investigação complementar.

4. Tratamento (Poliquimioterapia Única - PQT-U)

O tratamento padrão atual no SUS é a Poliquimioterapia Única (PQT-U), instituída pela Nota Técnica n.º 16/2021 do Ministério da Saúde, que utiliza a associação de três fármacos (rifampicina, dapsona e clofazimina) para todos os casos de hanseníase, variando apenas a duração do tratamento conforme a classificação [1] [4].

ClassificaçãoMedicamentosN.º de CartelasPrazo MáximoCritério de Alta
Paucibacilar (PB)Rifampicina + Dapsona + Clofazimina6Até 9 mesesConclusão das 6 doses supervisionadas
Multibacilar (MB)Rifampicina + Dapsona + Clofazimina12Até 18 mesesConclusão das 12 doses supervisionadas
Quadro 1: Posologia da PQT-U para adultos ou crianças (peso > 50 kg)
MedicamentoDose Supervisionada (Mensal na UBS)Dose Autoadministrada (Diária)Efeitos Adversos ComunsEfeitos Adversos GravesObservações e Condutas
Rifampicina600 mg
(2 cápsulas de 300 mg)
---Urina avermelhada, náuseasSíndrome pseudogripal, hepatite, trombocitopenia, insuficiência renalOrientar sobre coloração da urina. Monitorar função hepática. Reduz eficácia de anticoncepcionais orais.
Dapsona100 mg
(1 comprimido)
100 mg
(1 comprimido)
Anemia leve, cefaleiaAnemia hemolítica grave (risco em deficiência de G6PD), metahemoglobinemia, Síndrome DRESS (potencialmente fatal)Solicitar hemograma antes do início e periodicamente. Suspender imediatamente se houver febre, rash e eosinofilia.
Clofazimina300 mg
(3 cápsulas de 100 mg)
50 mg
(1 cápsula)
Pigmentação marrom-avermelhada da pele, ressecamento (ictiose)Sintomas gastrointestinais graves (dor abdominal, obstrução)A pigmentação regride lentamente após o fim do tratamento. Orientar hidratação cutânea diária.
Quadro 2: Posologia da PQT-U para crianças, adolescentes ou adultos entre 30 e 50 kg
Faixa de PesoRifampicina (Supervisionada)Dapsona (Supervisionada / Autoadministrada)Clofazimina (Supervisionada / Autoadministrada)
30 a 50 kg450 mg (1 cáps. 150 mg + 1 cáps. 300 mg)50 mg / 50 mg150 mg / 50 mg em dias alternados
< 30 kg10-20 mg/kg
(máx. 450 mg)
1-2 mg/kg
(máx. 50 mg)
6 mg/kg (máx. 150 mg) / 1 mg/kg 2 ou 3 vezes por semana

5. Reações Hansênicas

As reações hansênicas são episódios inflamatórios agudos mediados pelo sistema imunológico, podendo ocorrer antes, durante ou após o tratamento com PQT-U. São a principal causa de danos neurais e incapacidades físicas na hanseníase e devem ser tratadas como urgências na Atenção Primária [1] [3].

Quadro 3: Comparação entre Reação Tipo 1 e Reação Tipo 2
CaracterísticaReação Tipo 1 (Reação Reversa)Reação Tipo 2 (Eritema Nodoso Hansênico)
MecanismoHipersensibilidade celular (imunidade mediada por células)Deposição de imunocomplexos (resposta humoral)
Formas clínicasPaucibacilar (tuberculoide) e Multibacilar (dimorfa)Exclusiva de Multibacilar (virchowiana e dimorfa-virchowiana)
Manifestações cutâneasExacerbação de lesões preexistentes (eritema, edema, infiltração) e/ou surgimento de novas lesõesNódulos subcutâneos eritematosos e dolorosos (eritema nodoso), disseminados
NeuriteFrequente e grave (dor, espessamento, perda de função)Pode ocorrer
Sintomas sistêmicosIncomunsFebre, mal-estar, artralgia, mialgia, irite, orquite, nefrite
Tratamento de escolhaPrednisona 1 mg/kg/dia, com desmame gradual (redução de 10 mg a cada 15 dias)Talidomida 100 a 400 mg/dia (droga de escolha). Associar AAS 100 mg/dia como profilaxia tromboembólica, quando talidomida associada a prednisona.
AssociaçãoEm caso de neurite, manter analgesia e repouso do membro afetadoPrednisona em casos com neurite, irite e/ou orquite. Contraindicação da talidomida: eritema nodoso hansênico necrotizante ou mulheres em idade fértil.

5.1. Neurite

A neurite (inflamação aguda do nervo) é a manifestação mais grave das reações hansênicas, podendo levar à perda irreversível da função sensitiva e motora em poucas horas. Diante de um paciente com dor em trajeto de nervo periférico e/ou perda súbita de força ou sensibilidade, o profissional da Atenção Primária deve [3]:

  • Iniciar Prednisona 1 mg/kg/dia imediatamente.
  • Prescrever profilaxia para estrongiloidíase com albendazol ou ivermectina.
  • Prescrever profilaxia de osteoporose com cálcio e vitamina D.
  • Encaminhar com urgência para avaliação especializada (dermatologia).

6. Vigilância de Contatos

A vigilância de contatos é uma das estratégias mais importantes para a detecção precoce de novos casos e a interrupção da cadeia de transmissão [1] [2] [8].

6.1. Definição de Contato

Toda pessoa que resida ou tenha residido, conviva ou tenha convivido com o paciente diagnosticado com hanseníase nos últimos 5 anos anteriores ao diagnóstico, no âmbito domiciliar ou social próximo, sendo familiar ou não.

6.2. Procedimentos de Investigação

Todos os contatos identificados devem ser submetidos aos seguintes procedimentos:

  • Exame dermatoneurológico completo: inspeção de toda a superfície corporal e palpação de nervos periféricos.
  • Aplicação do Teste Rápido: em contatos assintomáticos, após descartada a hanseníase clinicamente e exame completo de todo o corpo, seguindo o fluxo de interpretação abaixo [8].
  • Vacinação BCG: Administrar dose de reforço para contatos sem sinais da doença, conforme histórico vacinal ou presença de cicatriz vacinal [1].

6.3. Fluxo de Conduta para Contatos com Teste Rápido

Situação Clínica do ContatoResultado do Teste RápidoConduta
Sem sinais ou sintomasReagenteAcompanhamento anual por 5 anos na unidade de saúde.
Sem sinais ou sintomasNão reagenteOrientar a procurar a unidade de saúde se surgirem sintomas.
Alterações clínicas inconclusivasReagenteSolicitar baciloscopia. Se positiva, iniciar tratamento.
Alterações clínicas inconclusivasNão reagenteEncaminhar para serviço de Atenção Especializada (dermatologia) para reavaliação.
Sinais clínicos confirmadosNão indicadoIniciar tratamento como caso novo.

7. Prevenção de Incapacidades e Autocuidado

A prevenção de incapacidades é um pilar do cuidado integral ao paciente com hanseníase e deve ser iniciada desde o momento do diagnóstico, mantida durante todo o tratamento e continuada após a alta [1] [6].

7.1. Classificação do Grau de Incapacidade Física

A avaliação do Grau de Incapacidade Física deve ser realizada no diagnóstico e na alta, sendo registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) [3]:

GrauDefinição
Grau 0Nenhuma alteração de sensibilidade ou motora em olhos, mãos e pés.
Grau 1Diminuição da sensibilidade protetora em olhos, mãos e/ou pés (detectada por monofilamentos) e/ou diminuição da força muscular.
Grau 2Presença de incapacidades e deformidades visíveis: garras, mão caída, pé caído, lagoftalmo, úlceras tróficas, reabsorção óssea e/ou ausência de força muscular.

7.2. Orientações de Autocuidado para o Paciente

As orientações de autocuidado devem ser fornecidas de forma clara e prática, preferencialmente em grupos de apoio, e incluem [6]:

  • Cuidados com a Face e os Olhos: O paciente deve inspecionar os olhos diariamente em um espelho, verificar a visão mensalmente e utilizar colírios lubrificantes prescritos em caso de ressecamento. Exercícios de piscar e de fortalecimento das pálpebras são recomendados. Em caso de lagoftalmo (dificuldade de fechar os olhos), deve-se usar proteção noturna (venda ocular). O uso de chapéu e óculos escuros é indicado para proteção contra poeira e luz solar. O nariz deve ser lavado com água limpa 3 a 4 vezes ao dia para evitar ressecamento e formação de crostas.
  • Cuidados com as Mãos: A hidratação e lubrificação diária da pele são essenciais. O paciente deve usar luvas ou panos para manipular objetos quentes ou cortantes e adaptar cabos de ferramentas e utensílios com materiais macios (borracha, espuma) para evitar ferimentos em áreas com sensibilidade diminuída. Calosidades devem ser lixadas suavemente após hidratação. Ferimentos devem ser lavados com água e sabão e mantidos cobertos, com busca de atendimento em caso de sinais de infecção. Uma série de exercícios de alongamento e fortalecimento dos dedos, polegar e punho deve ser realizada diariamente.
  • Cuidados com os Pés: A hidratação diária e a inspeção dos pés (com auxílio de um espelho, se necessário) são fundamentais para detectar bolhas, calos, rachaduras ou ferimentos. O uso de calçados adequados (fechados, de tamanho correto, com material macio, solado resistente e antiderrapante) é essencial para proteger os pés insensíveis. Calos devem ser lixados suavemente. Em caso de úlcera plantar, o repouso do pé afetado é prioritário, com busca imediata de atendimento médico se houver sinais de infecção. Exercícios de alongamento e fortalecimento dos músculos dos pés e pernas devem ser realizados diariamente, incluindo exercícios específicos para "pé caído".

8. Critérios de Encaminhamento

A grande maioria dos casos de hanseníase deve ser diagnosticada e tratada na própria Atenção Primária. O encaminhamento para a Atenção Especializada, por meio da Central de Regulação, está indicado nas seguintes situações [1] [3] [5] [9]:

SituaçãoPrioridadeEspecialidade
Neurite aguda (dor em trajeto de nervo e/ou perda súbita de função)UrgenteDermatologia
Efeitos adversos graves à PQT-U (Síndrome DRESS, anemia hemolítica severa, hepatite medicamentosa, trombocitopenia)UrgenteDermatologia
Reações hansênicas graves, atípicas ou reentrantes (> 3 episódios ou sem resposta ao tratamento padrão)Eletivo prioritárioDermatologia
Dúvida diagnóstica persistente, especialmente suspeita de hanseníase neural puraEletivoDermatologia
Suspeita de recidiva ou falência terapêutica (necessidade de investigação de resistência antimicrobiana)EletivoServiço de referência em Hanseníase (HC-UFG, HDT e HDS)*

*HC-UFG: Hospital das Clínicas da UFG. HDT: Hospital Estadual de Doenças Tropicais. HDS: Hospital Estadual de Dermatologia Sanitária Colônia Santa Marta.

9. Direitos do Paciente com Hanseníase

Os profissionais da Atenção Primária devem informar o paciente sobre seus direitos, contribuindo para o combate ao estigma e à discriminação [7]. O paciente com hanseníase tem direito ao tratamento gratuito e integral pelo SUS, incluindo medicamentos, acompanhamento multiprofissional e reabilitação. Em caso de incapacidade para o trabalho, pode requerer auxílio-doença junto ao INSS. Em situações de incapacidade permanente, pode ser elegível para aposentadoria por invalidez. Pessoas em situação de vulnerabilidade social podem acessar o Benefício de Prestação Continuada (BPC), conforme critérios da Lei Orgânica da Assistência Social. Além disso, pessoas com deficiência decorrente da hanseníase podem ter direito à isenção de impostos na aquisição de veículos adaptados.

Elaboração e revisão: Felipe Mota Rezende | Ana Lúcia Osório Maroccolo de Sousa

10. Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Portaria SCTIE/MS n.º 67, de 7 de julho de 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6.ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. (Capítulo: Hanseníase).
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Referência Rápida - Hanseníase: Reações hansênicas e efeitos adversos às drogas. 1.ª ed. atualizada. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde, 2020.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica n.º 16/2021-CGDE/DCCI/SVS/MS. Orientações para a implementação da ampliação de uso da clofazimina para o tratamento da hanseníase paucibacilar. Brasília, 2021.
  5. GOIÁS. Secretaria de Estado da Saúde. Boletim Epidemiológico: Vigilância da resistência do Mycobacterium leprae à poliquimioterapia em pacientes do Estado de Goiás. v. 26, n. 13. Goiânia: SES-GO, 2025.
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Autocuidado em Hanseníase: Face, Mãos e Pés. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Hanseníase: Conhecendo estigma, discriminação e os direitos das pessoas acometidas pela hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Uso do Teste Rápido para Contato de Hanseníase: Orientações para profissionais da saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
  9. SÃO PAULO. Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo das Ações de Controle da Hanseníase no Município de São Paulo. São Paulo: SMS-SP, 2025.