1. Introdução
No estado de Goiás, a hanseníase é um problema relevante de saúde pública, principalmente no contexto de populações de maior vulnerabilidade social. Este Guia Rápido do Telessaúde Goiás busca orientar os profissionais da Atenção Primária à Saúde do Estado de Goiás no diagnóstico, tratamento, acompanhamento e encaminhamento adequado dos pacientes com hanseníase, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A detecção precoce e o tratamento oportuno são os pilares fundamentais para interromper a cadeia de transmissão, curar a infecção e prevenir incapacidades físicas graves e permanentes.
2. Classificação
Para fins de definição do esquema terapêutico para Hanseníase na Atenção Primária, utiliza-se a classificação operacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), baseada no número de lesões cutâneas e no resultado da baciloscopia (quando disponível) [1] [2]:
| Classificação | Critérios |
|---|---|
| Paucibacilar (PB) | 1 a 5 lesões de pele e baciloscopia obrigatoriamente negativa. |
| Multibacilar (MB) | Mais de 5 lesões de pele e/ou baciloscopia positiva. Casos com acometimento de mais de um nervo periférico também são classificados como multibacilar, independentemente do número de lesões. |
3. Diagnóstico Clínico e Exames Complementares
O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e epidemiológico, devendo ser realizado na própria unidade de saúde por meio de anamnese completa e exame dermatoneurológico.
3.1. Sinais Cardinais
O diagnóstico é confirmado pela presença de pelo menos um dos seguintes sinais cardinais [1] [2]:
- Lesão(ões) e/ou área(s) da pele com alteração de sensibilidade (térmica, dolorosa e/ou tátil).
- Espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas, motoras e/ou autonômicas.
- Presença de M. leprae confirmada por baciloscopia de esfregaço intradérmico ou biópsia de pele.
3.2. Exame Dermatoneurológico
O exame deve incluir a inspeção de toda a superfície cutânea para identificar lesões (manchas, placas, nódulos, infiltrações) e a realização de testes de sensibilidade nas áreas suspeitas. A palpação dos principais troncos nervosos periféricos (ulnar, mediano, radial, fibular comum e tibial posterior) é fundamental para verificar espessamento, dor ou choques à palpação [1] [2].
3.3. Exames Complementares
| Exame | Indicação | Interpretação e Observações |
|---|---|---|
| Baciloscopia (BAAR) | Dúvida diagnóstica, classificação operacional, suspeita de recidiva. Coleta: lóbulos auriculares, cotovelos e borda ativa da lesão. | Positiva = confirma classificação multibacilar. Negativa = não exclui o diagnóstico. |
| Biópsia de pele (histopatologia) | Diagnóstico indefinido, diagnóstico diferencial, suspeita de forma neural pura. | Avalia o padrão do infiltrado inflamatório e a presença de bacilos. Deve ser solicitada quando a clínica não é conclusiva [1] [2]. |
| Teste Rápido (ML Flow / anti-PGL-1) | Avaliação de contatos de casos confirmados: (a) assintomáticos ou (b) com alterações clínicas inconclusivas. NÃO é teste diagnóstico isolado. | Reagente = maior risco de adoecimento (acompanhar anualmente por 5 anos). Não reagente = orientar sinais e sintomas da doença e retornar caso apareçam, pois teste não reagente não descarta a doença [8]. |
| Teste Molecular (qPCR) | Serviço de referência: material de biópsia de pele ou de nervo. | Aprovado para uso exclusivo na investigação dos contatos de hanseníase. Útil em casos paucibacilares com baciloscopia negativa [2] [5]. |
| Amplificação de DNA e hibridização reversa | Serviço de referência: material de biópsia de pele ou de nervo. | Investigação de resistência antimicrobiana. |
3.4. Fluxo de Investigação Diagnóstica na Atenção Primária
O profissional deve seguir o seguinte raciocínio clínico diante de um caso suspeito:
- Suspeita clínica (mancha com alteração de sensibilidade e/ou espessamento neural) → Realizar exame dermatoneurológico completo e avaliação neurológica simplificada.
- Diagnóstico confirmado (pelo menos 1 sinal cardinal presente) → Classificar como paucibacilar ou multibacilar, notificar e iniciar tratamento com Poliquimioterapia Única (PQT-U).
- Diagnóstico inconclusivo (sinais sugestivos, mas sem confirmação) → Solicitar baciloscopia e/ou biópsia. Se indisponível, encaminhar para serviço de referência.
- Suspeita de forma neural pura (alteração neural sem lesão cutânea) → Encaminhar para Atenção Especializada (dermatologia) para investigação complementar.
4. Tratamento (Poliquimioterapia Única - PQT-U)
O tratamento padrão atual no SUS é a Poliquimioterapia Única (PQT-U), instituída pela Nota Técnica n.º 16/2021 do Ministério da Saúde, que utiliza a associação de três fármacos (rifampicina, dapsona e clofazimina) para todos os casos de hanseníase, variando apenas a duração do tratamento conforme a classificação [1] [4].
| Classificação | Medicamentos | N.º de Cartelas | Prazo Máximo | Critério de Alta |
|---|---|---|---|---|
| Paucibacilar (PB) | Rifampicina + Dapsona + Clofazimina | 6 | Até 9 meses | Conclusão das 6 doses supervisionadas |
| Multibacilar (MB) | Rifampicina + Dapsona + Clofazimina | 12 | Até 18 meses | Conclusão das 12 doses supervisionadas |
| Medicamento | Dose Supervisionada (Mensal na UBS) | Dose Autoadministrada (Diária) | Efeitos Adversos Comuns | Efeitos Adversos Graves | Observações e Condutas |
|---|---|---|---|---|---|
| Rifampicina | 600 mg (2 cápsulas de 300 mg) | --- | Urina avermelhada, náuseas | Síndrome pseudogripal, hepatite, trombocitopenia, insuficiência renal | Orientar sobre coloração da urina. Monitorar função hepática. Reduz eficácia de anticoncepcionais orais. |
| Dapsona | 100 mg (1 comprimido) | 100 mg (1 comprimido) | Anemia leve, cefaleia | Anemia hemolítica grave (risco em deficiência de G6PD), metahemoglobinemia, Síndrome DRESS (potencialmente fatal) | Solicitar hemograma antes do início e periodicamente. Suspender imediatamente se houver febre, rash e eosinofilia. |
| Clofazimina | 300 mg (3 cápsulas de 100 mg) | 50 mg (1 cápsula) | Pigmentação marrom-avermelhada da pele, ressecamento (ictiose) | Sintomas gastrointestinais graves (dor abdominal, obstrução) | A pigmentação regride lentamente após o fim do tratamento. Orientar hidratação cutânea diária. |
| Faixa de Peso | Rifampicina (Supervisionada) | Dapsona (Supervisionada / Autoadministrada) | Clofazimina (Supervisionada / Autoadministrada) |
|---|---|---|---|
| 30 a 50 kg | 450 mg (1 cáps. 150 mg + 1 cáps. 300 mg) | 50 mg / 50 mg | 150 mg / 50 mg em dias alternados |
| < 30 kg | 10-20 mg/kg (máx. 450 mg) | 1-2 mg/kg (máx. 50 mg) | 6 mg/kg (máx. 150 mg) / 1 mg/kg 2 ou 3 vezes por semana |
5. Reações Hansênicas
As reações hansênicas são episódios inflamatórios agudos mediados pelo sistema imunológico, podendo ocorrer antes, durante ou após o tratamento com PQT-U. São a principal causa de danos neurais e incapacidades físicas na hanseníase e devem ser tratadas como urgências na Atenção Primária [1] [3].
| Característica | Reação Tipo 1 (Reação Reversa) | Reação Tipo 2 (Eritema Nodoso Hansênico) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Hipersensibilidade celular (imunidade mediada por células) | Deposição de imunocomplexos (resposta humoral) |
| Formas clínicas | Paucibacilar (tuberculoide) e Multibacilar (dimorfa) | Exclusiva de Multibacilar (virchowiana e dimorfa-virchowiana) |
| Manifestações cutâneas | Exacerbação de lesões preexistentes (eritema, edema, infiltração) e/ou surgimento de novas lesões | Nódulos subcutâneos eritematosos e dolorosos (eritema nodoso), disseminados |
| Neurite | Frequente e grave (dor, espessamento, perda de função) | Pode ocorrer |
| Sintomas sistêmicos | Incomuns | Febre, mal-estar, artralgia, mialgia, irite, orquite, nefrite |
| Tratamento de escolha | Prednisona 1 mg/kg/dia, com desmame gradual (redução de 10 mg a cada 15 dias) | Talidomida 100 a 400 mg/dia (droga de escolha). Associar AAS 100 mg/dia como profilaxia tromboembólica, quando talidomida associada a prednisona. |
| Associação | Em caso de neurite, manter analgesia e repouso do membro afetado | Prednisona em casos com neurite, irite e/ou orquite. Contraindicação da talidomida: eritema nodoso hansênico necrotizante ou mulheres em idade fértil. |
5.1. Neurite
A neurite (inflamação aguda do nervo) é a manifestação mais grave das reações hansênicas, podendo levar à perda irreversível da função sensitiva e motora em poucas horas. Diante de um paciente com dor em trajeto de nervo periférico e/ou perda súbita de força ou sensibilidade, o profissional da Atenção Primária deve [3]:
- Iniciar Prednisona 1 mg/kg/dia imediatamente.
- Prescrever profilaxia para estrongiloidíase com albendazol ou ivermectina.
- Prescrever profilaxia de osteoporose com cálcio e vitamina D.
- Encaminhar com urgência para avaliação especializada (dermatologia).
6. Vigilância de Contatos
A vigilância de contatos é uma das estratégias mais importantes para a detecção precoce de novos casos e a interrupção da cadeia de transmissão [1] [2] [8].
6.1. Definição de Contato
Toda pessoa que resida ou tenha residido, conviva ou tenha convivido com o paciente diagnosticado com hanseníase nos últimos 5 anos anteriores ao diagnóstico, no âmbito domiciliar ou social próximo, sendo familiar ou não.
6.2. Procedimentos de Investigação
Todos os contatos identificados devem ser submetidos aos seguintes procedimentos:
- Exame dermatoneurológico completo: inspeção de toda a superfície corporal e palpação de nervos periféricos.
- Aplicação do Teste Rápido: em contatos assintomáticos, após descartada a hanseníase clinicamente e exame completo de todo o corpo, seguindo o fluxo de interpretação abaixo [8].
- Vacinação BCG: Administrar dose de reforço para contatos sem sinais da doença, conforme histórico vacinal ou presença de cicatriz vacinal [1].
6.3. Fluxo de Conduta para Contatos com Teste Rápido
| Situação Clínica do Contato | Resultado do Teste Rápido | Conduta |
|---|---|---|
| Sem sinais ou sintomas | Reagente | Acompanhamento anual por 5 anos na unidade de saúde. |
| Sem sinais ou sintomas | Não reagente | Orientar a procurar a unidade de saúde se surgirem sintomas. |
| Alterações clínicas inconclusivas | Reagente | Solicitar baciloscopia. Se positiva, iniciar tratamento. |
| Alterações clínicas inconclusivas | Não reagente | Encaminhar para serviço de Atenção Especializada (dermatologia) para reavaliação. |
| Sinais clínicos confirmados | Não indicado | Iniciar tratamento como caso novo. |
7. Prevenção de Incapacidades e Autocuidado
A prevenção de incapacidades é um pilar do cuidado integral ao paciente com hanseníase e deve ser iniciada desde o momento do diagnóstico, mantida durante todo o tratamento e continuada após a alta [1] [6].
7.1. Classificação do Grau de Incapacidade Física
A avaliação do Grau de Incapacidade Física deve ser realizada no diagnóstico e na alta, sendo registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) [3]:
| Grau | Definição |
|---|---|
| Grau 0 | Nenhuma alteração de sensibilidade ou motora em olhos, mãos e pés. |
| Grau 1 | Diminuição da sensibilidade protetora em olhos, mãos e/ou pés (detectada por monofilamentos) e/ou diminuição da força muscular. |
| Grau 2 | Presença de incapacidades e deformidades visíveis: garras, mão caída, pé caído, lagoftalmo, úlceras tróficas, reabsorção óssea e/ou ausência de força muscular. |
7.2. Orientações de Autocuidado para o Paciente
As orientações de autocuidado devem ser fornecidas de forma clara e prática, preferencialmente em grupos de apoio, e incluem [6]:
- Cuidados com a Face e os Olhos: O paciente deve inspecionar os olhos diariamente em um espelho, verificar a visão mensalmente e utilizar colírios lubrificantes prescritos em caso de ressecamento. Exercícios de piscar e de fortalecimento das pálpebras são recomendados. Em caso de lagoftalmo (dificuldade de fechar os olhos), deve-se usar proteção noturna (venda ocular). O uso de chapéu e óculos escuros é indicado para proteção contra poeira e luz solar. O nariz deve ser lavado com água limpa 3 a 4 vezes ao dia para evitar ressecamento e formação de crostas.
- Cuidados com as Mãos: A hidratação e lubrificação diária da pele são essenciais. O paciente deve usar luvas ou panos para manipular objetos quentes ou cortantes e adaptar cabos de ferramentas e utensílios com materiais macios (borracha, espuma) para evitar ferimentos em áreas com sensibilidade diminuída. Calosidades devem ser lixadas suavemente após hidratação. Ferimentos devem ser lavados com água e sabão e mantidos cobertos, com busca de atendimento em caso de sinais de infecção. Uma série de exercícios de alongamento e fortalecimento dos dedos, polegar e punho deve ser realizada diariamente.
- Cuidados com os Pés: A hidratação diária e a inspeção dos pés (com auxílio de um espelho, se necessário) são fundamentais para detectar bolhas, calos, rachaduras ou ferimentos. O uso de calçados adequados (fechados, de tamanho correto, com material macio, solado resistente e antiderrapante) é essencial para proteger os pés insensíveis. Calos devem ser lixados suavemente. Em caso de úlcera plantar, o repouso do pé afetado é prioritário, com busca imediata de atendimento médico se houver sinais de infecção. Exercícios de alongamento e fortalecimento dos músculos dos pés e pernas devem ser realizados diariamente, incluindo exercícios específicos para "pé caído".
8. Critérios de Encaminhamento
A grande maioria dos casos de hanseníase deve ser diagnosticada e tratada na própria Atenção Primária. O encaminhamento para a Atenção Especializada, por meio da Central de Regulação, está indicado nas seguintes situações [1] [3] [5] [9]:
| Situação | Prioridade | Especialidade |
|---|---|---|
| Neurite aguda (dor em trajeto de nervo e/ou perda súbita de função) | Urgente | Dermatologia |
| Efeitos adversos graves à PQT-U (Síndrome DRESS, anemia hemolítica severa, hepatite medicamentosa, trombocitopenia) | Urgente | Dermatologia |
| Reações hansênicas graves, atípicas ou reentrantes (> 3 episódios ou sem resposta ao tratamento padrão) | Eletivo prioritário | Dermatologia |
| Dúvida diagnóstica persistente, especialmente suspeita de hanseníase neural pura | Eletivo | Dermatologia |
| Suspeita de recidiva ou falência terapêutica (necessidade de investigação de resistência antimicrobiana) | Eletivo | Serviço de referência em Hanseníase (HC-UFG, HDT e HDS)* |
*HC-UFG: Hospital das Clínicas da UFG. HDT: Hospital Estadual de Doenças Tropicais. HDS: Hospital Estadual de Dermatologia Sanitária Colônia Santa Marta.
9. Direitos do Paciente com Hanseníase
Os profissionais da Atenção Primária devem informar o paciente sobre seus direitos, contribuindo para o combate ao estigma e à discriminação [7]. O paciente com hanseníase tem direito ao tratamento gratuito e integral pelo SUS, incluindo medicamentos, acompanhamento multiprofissional e reabilitação. Em caso de incapacidade para o trabalho, pode requerer auxílio-doença junto ao INSS. Em situações de incapacidade permanente, pode ser elegível para aposentadoria por invalidez. Pessoas em situação de vulnerabilidade social podem acessar o Benefício de Prestação Continuada (BPC), conforme critérios da Lei Orgânica da Assistência Social. Além disso, pessoas com deficiência decorrente da hanseníase podem ter direito à isenção de impostos na aquisição de veículos adaptados.
Elaboração e revisão: Felipe Mota Rezende | Ana Lúcia Osório Maroccolo de Sousa
10. Referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Portaria SCTIE/MS n.º 67, de 7 de julho de 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6.ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. (Capítulo: Hanseníase).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Referência Rápida - Hanseníase: Reações hansênicas e efeitos adversos às drogas. 1.ª ed. atualizada. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde, 2020.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica n.º 16/2021-CGDE/DCCI/SVS/MS. Orientações para a implementação da ampliação de uso da clofazimina para o tratamento da hanseníase paucibacilar. Brasília, 2021.
- GOIÁS. Secretaria de Estado da Saúde. Boletim Epidemiológico: Vigilância da resistência do Mycobacterium leprae à poliquimioterapia em pacientes do Estado de Goiás. v. 26, n. 13. Goiânia: SES-GO, 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Autocuidado em Hanseníase: Face, Mãos e Pés. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Hanseníase: Conhecendo estigma, discriminação e os direitos das pessoas acometidas pela hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Uso do Teste Rápido para Contato de Hanseníase: Orientações para profissionais da saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
- SÃO PAULO. Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo das Ações de Controle da Hanseníase no Município de São Paulo. São Paulo: SMS-SP, 2025.